I. REFLEXÃO-MOTIVAÇÃO

 

«Vem do Líbano,

noiva minha vem;

desce do Líbano,

desce do alto de Amaná ,

do cume do Sanir e do Hermon,

esconderijo de leões,

montes onde rondam as panteras»

(Cant 4,8)

 

O imperativo do verbo ir é frequente tanto no AT como no NT: «vai para a terra que eu te mostrar», escutou Abraão (Gn 12, 1); «vai! Eu te envio ao Faraó» escutará Moisés (Ex 3, 10); «vai e diz a esse povo...», será a chamada que receberão Isaías, Jeremias ou Ezequiel; «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens» (Mc 1, 17); «Mestre, onde moras? Vinde e vede». (Jo 1, 38-39); «Vem e segue-me» (Mc10, 20).

O que unifica todos os envios é que, ao enviado não é dado outra garantia a não ser «Eu estarei contigo» do AT, ou a expressão Ele está comigo do Evangelho.

A missão dar-se-á, portanto, à intempérie de outras seguranças, mas desde a confiança no «ir acompanhado», pelo Senhor como companheiro de jornada e com-vocado juntamente com outros...

Palavras a escutar

Não nos pertencemos! Nem como indivíduos isolados, nem como corpo religioso. Cada uma das nossas congregações é um Corpo para a missão, um Corpo para o Espírito. Ou nos incorporamos cada vez mais a ele, ou esse Corpo se torna cada vez mais estranho para nós. Assim ensina a experiência, mas...

 

a)      Não há identidade possível sem pertença.

Não é possível responder à pergunta quem sou eu, sem incluir na resposta, a quem pertenço eu? Identidade e pertença entrelaçam-se mutuamente. Não fomos chamados pelo Senhor num espaço de nada, mas primeiramente na Igreja e, dentro desta, numa família religiosa na qual tentamos segui-lo e amá-lo.

Qual é, portanto, a minha primeira comunidade, aquela na qual vivo localmente ou o Corpo apostólico (Congregação) ao qual pertenço?

Para muitas de nós a pergunta é inequívoca, clara: o Corpo apostólico (Companhia) é a minha primeira comunidade. Esta onde vivo é a sua concretização local, uma forma privilegiada de encarnar aqui e agora a missão e o espírito de todo o Corpo.

Uma pertença assim, está composta por dois elementos em permanente tensão: o amor e a criatividade. A nossa pertença à Companhia a que estamos vinculadas há-de ser amorosa e criativa ao mesmo tempo. Não basta um suposto amor, é necessária a criatividade; sem esta última o amor seria infecundo. Não basta uma suposta criatividade, é necessário a lealdade e o amor; sem estes dois últimos a criatividade transforma-se, facilmente, em aspereza.

Homens e mulheres santos encontram-se em todas as congregações, por todas as geografias. Comunidades apostólicas santas..., essas são poucas (J. Chittister).

 

b)      Dificuldades de sempre, dificuldades de agora.

Sempre foi difícil juntar individualidade e pertença, criatividade e participação, experiência pessoal e experiência grupal, subjectividade e norma. São realidades sempre à margem de uma perigosa e infecunda polarização. Perigosa para o Corpo, infecunda para a missão.

A essas dificuldades de sempre unem-se outras de agora: um pluralismo cultural - bom em si - que nos contamina do seu individualismo inerente; uma cultura de desejos que produz em nós uma notável dispersão afectiva. Muito mais do que a diáspora geográfica, o nosso inimigo formidável é a diáspora ideológica (dispersão de ideias) e a fragmentação afectiva. Se de alguma  «doença mortal» padecemos hoje, essa doença chama-se individualismo.

A identidade moderna foi-se construindo com base na acentuada polarização da subjectividade, da individualidade e da diferença (P. Berger). É certo, sem dúvida alguma, que essas características da identidade moderna favorecem em princípio a originalidade e a personalização dos projectos vitais e também dos apostólicos. Todavia, é também evidente que em muitas ocasiões levam ao caos interior e à falta de dinamismo missionário. A ingenuidade neste terreno é, hoje, uma forma acrescida de pecado.

 

c)      Chamadas, convocadas, enviadas.

Nenhum texto evangélico define tão bem o que nos tem sucedido e o que estamos chamadas a que nos suceda, como Mc 3,13-15. «Ao subir a montanha Jesus chamou os que quis (vocação), e foram com Ele. Chamou-os para estarem com Ele (com-vocação) e para os enviar a pregar e expulsar demónios (missão)». Aí está um texto que simultaneamente nos define e nos provoca. A quê?

-          A criar uma identidade que não dissocie esses três elementos, mas que os mantenha sempre unidos e em pé, alimentando-se mutuamente.

-           A valorizar a com-vocação (reunião apostólica à volta do Senhor) Como valorizamos a vocação, chamada e resposta pessoais, visto que no nosso caso concreto nos foram dadas indissoluvelmente unidas? Se a chamada de Deus e a convocação na Companhia foram historicamente e para nós a mesma coisa, não deveríamos nós vivê-las separadamente.

-          A cultivar uma experiência de pertença congregacional que sobre esse argumento teologal - ele é a base- conjugue também o do agradecimento. Muitas das coisas que mais amamos nesta vida recebemo-las na Companhia à qual pertencemos. Como poderíamos deixar de  a amar, de nos preocupar por ela, de nos pormos à sua disposição para que cumpra melhor a sua missão que é também nossa?

 

II. PROPOSTA DE ORAÇÃO

Pessoas para quem podemos olhar – A vocação de Mateus

m Em Mt 9, 9 o sujeito do primeiro verbo é Jesus: «viu um homem chamado Mateus». Esse homem está passivo, «sentado num posto de  

cobrança», entregue à sua condição de  cobrador de impostos, preso a uma profissão que o torna desprezível aos olhos de todos.

Mas os olhos de Jesus souberam ver mais além das aparências, viram no publicano, um discípulo, um seguidor. Para esse olhar ninguém está sentenciado nem qualificado definitivamente, mas tem o futuro pela frente. «Segue-me», disse-lhe e «ele levantou-se e seguiu-o».

Mateus sentiu-se olhado pela primeira vez de outro modo, alguém acredita nele e diz-lhe: vem! e por isso converte-se em alguém dinâmico que deixa para trás o seu passado, assume o protagonismo da sua própria vida e põe-se em marcha atrás daquele que foi capaz de o olhar assim.

-          Contempla o olhar de Jesus sobre Mateus e sente que tu és Mateus.

-          Deixa-te olhar por uns olhos que vêem em ti muito mais dentro do que os outros vêem e do que tu mesmo vês de ti.

-          Chama-te porque não se fixou nos teus defeitos nem nas tuas incapacidades, não se fixou no que já és, mas vê em ti todas as possibilidades escondidas que Ele mesmo pôs em ti e que tu talvez  desconheças.

-          Confia mais  nos seus olhos do que nos teus, acredita que o seu olhar e a sua chamada podem fazer de ti um discípulo.

-           Pede-Lhe que te ensine a olhar assim os outros, que te faça como Ele, incapaz de sentenciar a quem quer que seja, de condenar alguém, de pensar na impossibilidade de mudança.

-          Vai nomeando interiormente aos membros da tua comunidade, sente-te com-vocada junto de cada um deles pelo «vem!» que Jesus dirigiu a cada um.

 

Olhamos o nosso processo vocacional

 ðRecorda agradecida

-          o dia em que experimentaste com força transformadora que a tua vida só teria sentido a partir da entrega a Jesus e ao seu Reino;

-          o bem que desde então o Senhor fez a outras pessoas através das tuas palavras, do teu trabalho apostólico, das tuas relações, dos teus compromissos, das tuas mortes e da entrega da tua vida .

 ðPergunta-te com sinceridade

 - se continua a haver o impulso missionário na tua vida porque o perigo mais forte de «mundanizar-nos» no sentido negativo do termo, está na despreocupação pelas pessoas e na apatia em relação aos “vai e vem” que o Reino de Deus experimenta no mundo. E isto está na raiz da nossa mediocridade, instalação, estagnação, rotina,...

ðPede perdão ao Senhor, à Igreja e à tua Congregação se em ti há algo disto...

ðDedica um tempo

-          a recordar como e quando é que recebeste o «envio» para a tarefa concreta que realizas agora.

-          A sentir que não estás aí unicamente por tua própria decisão, mas por uma chamada da Companhia através da mediação da obediência.

-          Cai na conta do que isso significa para a tua vida: não és uma pessoa isolada, pertences a um Corpo ao qual estás vinculada por uma chamada que não tem a sua origem em ti, mas na eleição livre e gratuita do Senhor.

 

Faças o que fizeres, participas na missão da Companhia, e da tua adesão a ela depende, em grande parte, a fecundidade do teu trabalho apostólico.

 

III. PARA DIALOGAR

Þ Procura ter uma conversa pessoal com alguma pessoa da comunidade, especialmente com aquelas cuja missão conheces pouco.

Comunicai-vos  mutuamente sobre as vossas tarefas concretas: em que consistem, o que é que delas vos ilude, que dificuldades encontrais, onde encontrais apoio, como é que as viveis.

Buscai juntas na medida do possível, apoio e colaboração.

Þ Aproxima-te de alguma outra pessoa fora da comunidade, mas que seja da mesma cidade ou região. Procura visita-la na sua comunidade ou no seu lugar de trabalho para te interessar por ela, fazer o esforço de te abrires a outros mundos, outras preocupações e problemas, outros modos de actuar...

Þ Partilha depois com a tua própria comunidade a experiência destes contactos, o que aprendeste com eles, a mudança que ela provocou na tua perspectiva anterior...

Contamos em forma de «consolação/desolação» as nossas experiências de com-vocação ou seja, caindo na conta dos momentos e situações que nos encheram de alegria e desprendimento do coração a pertença á nossa Congregação ou comunidade concreta. E também aqueles em que vivemos a nossa pertença à distância, com desânimo ou crítica amarga e como saímos desses poços negros.

Þ Reflectir sobre como vamos integrando, embora de forma precária e entorpecida, a «individualidade e a pertença, a criatividade e a participação, a experiência pessoal e a experiência grupal, a subjectividade e a norma...»

Þ Como não vamos manter sempre a seriedade e a transcendência, podemos empreender um regresso momentâneo à infância e recordar aquele conto dos sete cabritos que, quando o lobo chamava à sua porta dizendo: «Abri-me filhinhos meus, que sou a vossa mãe», responderam: «Mostra-nos a patinha...» e o perverso lobo tinha-a untada de farinha para os enganar

Þ Tirar a moral de que é preciso andarmos atentas, porque o ditoso individualismo chama constantemente à nossa porta. E detectar juntas alguns dos truques com os quais dissimula a sua enorme pata.