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Levanta-te!
(Tradução e adaptação de “Cuadernos CONFER, 17”) |
O encontro com o Senhor, tanto no AT como no NT, poderia resumir-se no gesto simbólico de levantar, endireitar, pôr de pé.
O encontro com Ele gera movimento, energia, vitalidade, mudança: no contacto com Ele, a gente levanta-se, sacode o pó, liberta-se dos jugos e cadeias, move-se, desinstala-se, empreende a aventura do desconhecido.
Cada um desses gestos, supõe a obediência a um apelo que convida a levantar-se para sair de qualquer tipo de prostração, ir, subir, passar para o outro lado, reorientar a própria vida noutra direcção.
1. Palavras a escutar
Existem pesos, internos e externos, que não nos deixam viver de pé, que nos mantêm curvadas como a mulher do Evangelho ou mortas e manietadas como Lázaro no túmulo. Quereríamos ressaltar estes três pesos:
a) Soprar as cinzas em vez de soprar os dons. Ninguém faz muito bem ao outro soprando-lhe as suas cinzas (fazendo-lhe sentir o seu negativo), mas, soprando os seus dons (fazendo-lhe sentir as suas qualidades)
Ninguém faz bem a si mesmo soprando as próprias cinzas, só se for capaz de soprar os seus dons.
«Reaviva o Dom de Deus que está em ti», é a recomendação de Paulo a Timóteo, seu discípulo, como terapia contra a paralisia.
Porque
é que as coisas são assim?
Existem pelo menos três formas de nos levantarmos e começarmos a andar atrás de alguém ou de algo, e só uma delas funciona, a longo prazo, de modo eficaz e evangélico.
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Durante bastante tempo, e enquanto somos relativamente jovens, podemos
dinamizar-nos apoiados nos nossos poderes: na nossa inteligência, prestígio,
imagem social, etc.
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Quando chegamos à idade madura, o cansaço produzido por essa forma de
viver, defendendo constantemente a própria imagem, chega a tornar-se insuportável.
Sopramos cinzas; esse modo de nos erguermos desgasta e é infecundo...
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Curiosamente, podemos também erguer-nos, durante algum tempo, apoiados
nos nossos fracassos. A consciência do fracasso pode dinamizar o nosso “eu”.
Só que, se o anterior cansa, este leva-nos directamente ao esgotamento e à
depressão...
* É entrando em contacto com o dom que há em nós e à nossa volta, quer dizer, com Deus-em-nós e Deus-no-mundo, que nos levantamos com paz. Amados e acolhidos por Ele, chamados por Ele, convidados a trabalhar com Ele numa missão que muito antes de ser nossa é d’Ele...
b) Os pesos mortos do “eu”.
Não
é necessário ser muito perspicaz para descobrir que algo nos deita abaixo e
noutra direcção. Quem ainda não o descobriu não será, certamente, por ser mais santo senão mais infeliz, ou ainda com falta de
experiência...
Mas,
porque é que tem de ser assim?
O nosso “eu” é uma matéria prima com uma infinidade de buracos
negros. Está também feito de matéria nobre.
São os buracos negros da insegurança, o medo, a angústia, etc., que
tendem a curar-se a si mesmos, através da escala ascendente:
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cobiça de riquezas (riquezas materiais, humanas, intelectuais ou
espirituais)
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ânsia de prestígio (desejo de reconhecimento...)
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domínio dos outros (desejo de que prevaleça a minha opinião...)
Esses são os pesos mortos do “eu”, os que puxam por ele para baixo e noutra direcção.
Para baixo e noutra direcção relativamente a quê ou a
quem?
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Em relação a Cristo e à chamada que nos dirige hoje a todas nós, como
religiosas, como mulheres integradas num Corpo apostólico.
No
mundo sobe-se subindo, no Evangelho sobe-se descendo.
Seria,
então necessário, procurar que tudo quanto existe em nós de dom seja posto ao
serviço desta busca de Deus e dos seus sonhos sobre nós e sobre o mundo, em
vez de buscar a inércia do nosso “eu”.
Tudo está em que seja o seu Amor a pôr-nos em pé «vou para onde sou levado», como dizia Sto. Agostinho.
c) Superar a «heresia emocional».
Há
uma heresia «dogmática», que consiste em sair do ensinamento da Igreja em matéria
de fé.
Porém,
existe uma terceira heresia, a heresia emocional, muito mais perigosa e
generalizada do que as duas anteriores.
Em
que consiste e de que formas se reveste entre nós?
A
heresia emocional é esse sentimento extenso e difuso, inconfessado talvez, mas
real, de que Deus e a fé nele não têm nenhum poder sobre este mundo; de que não
têm poder sobre as nossas Congregações religiosas; de que também não o têm
já... em mim.
Eis aqui a forma mais perigosa e real, embora não pronunciada, de ateísmo ou falta de fé da nossa parte.
Os
dois discípulos a caminho de Emaús e Maria Madalena, chorosa pela aparente
morte definitiva do Senhor e cheia de saudades pelos tempos passados, reflectem
muito a nossa situação actual.
E,
em contrapartida... a primeira reacção de Cléofas e do seu companheiro ao
reconhecer o ressuscitado é voltar à comunidade.
«
Se o Senhor continua a estar vivo entre nós, tem futuro viver juntos tendo-o a
Ele como centro». E a primeira coisa que o Ressuscitado faz com Maria Madalena
é «desviá-la da sua triste procura» e levantá-la voltando-a para o
testemunho.
À Vida Religiosa actual e a cada uma de nós, é-nos pedido levantar-nos das nossas prostrações e pormo-nos em pé. Soprar dons em vez de cinzas, libertar o eu dos seus pesos mortos, aceitar Aquele que está vivo no meio de nós e que nos chama, nos reúne e envia, são três formas da terapia humana e espiritual de que tão necessitadas estamos. Necessitadas e oxalá também desejosas.
2. Gente a quem olhar
n « Jesus saiu da sinagoga e foi com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e logo eles contaram isso a Jesus. Jesus foi a onde ela estava, pegou-lhe na mão e ajudou-a a levantar-se. A febre deixou-a e ela pôs-se a servi-los (Mc 1,29-31).
No início da cena, vemos uma mulher prostrada, em posição horizontal que é própria dos mortos, separada da comunidade e possuída pela febre.
No final, essa mesma mulher, em pé e curada, está integrada na comunidade, servindo os outros, isto é, nesse lugar a que Jesus costuma enviar aos que o seguem, porque aí « tem- se parte com Ele» (cf Jo. 13,8).
No
centro do texto está a chave de transformação: «Jesus
aproximou-se e, tomando-a pela mão levantou-a».
Contempla a mão estendida de Jesus. É o seu primeiro gesto silencioso no evangelho de Marcos e nele se evoca, tal como numa maqueta, tudo o que Ele veio a ser para a humanidade caída: uma mão estendida que nos agarra para nos tirar da nossa prostração, para livrar-nos das nossas febres, para nos conduzir ao serviço dos seus irmãos mais pequenos.
«Havia n’Ele uma força para curar...» (Lc 5, 17).
Entra no âmbito dessa força, deixa-te levantar por essa mão, agradece
a força e a libertação que te chegam através dela. Pergunta-te pelo
potencial que há nas tuas, como fluem? Em direcção a quem? Retêm ou entregam?
Afundam ou levantam?...
n
Aproxima-te
da cena da cura do cego Bartimeu (Mc 10, 46-52): era um mendigo, estava cego e
prostrado à margem do caminho, marginalizado do fluir da vida. Soube que Jesus
passava a seu lado, mas ele estava longe, incapaz de se mover, envolto nas suas
trevas.
Põe-te a gritar como ele, uma e outra vez: «Jesus,
filho de David, tem compaixão de mim! ».
Não
deixes que algo ou alguém sufoquem o teu grito.
Escuta as palavras que te dizem da sua parte: «Ânimo, levanta-te, está a chamar-te!» os dois imperativos gravitam sobre um indicativo glorioso: «Ele está a chamar por ti!».
Abre-te à força imparável que flui desse apelo interior e que é capaz de cativar-te e fazer-te sair das tuas ‘valetas’.
Tal como o cego dá um salto, atira para longe o manto que te envolve e põe-te tal como és diante de Jesus que te pergunta: «Que queres que te faça?». « Mestre, que eu veja»
Sente as suas mãos sobre os teus olhos e escuta as suas palavras: «Vai, a tua fé te salvou».
Depois, põe-te a segui-lo pelo caminho.