Eu dormia, mas o meu coração velava,

E ouvi o meu amado que batia:

“Abre-me, minha irmã, minha amada,

minha pomba sem defeito!

Tenho a cabeça orvalhada,

Os meus cabelos gotejam orvalho!”

(Cant 5, 2)

            O imperativo abre-me! é uma forma de expressar o não tenhas medo! que muitos crentes bíblicos escutaram à hora do seu encontro com Deus. O medo é um dos piores obstáculos para esse encontro. Não é o mesmo que o temor de Deus, reacção típica perante uma epifania e que não provoca desânimo senão louvor e adoração. O medo nasce de uma falta de confiança e tem efeitos paralisantes. A presença do Ressuscitado terá o efeito libertador de abrir as portas e vencer nas pessoas, a teimosia em fechar-se.

1.      Palavras a escutar

O contrário do medo é o ânimo, mas na raiz do ânimo há outra virtude: a confiança. Essa é, pelo menos, a lógica de Jesus em muitas passagens do Evangelho: «Ânimo, não temais, sou eu». Muitos de nós, religiosos e religiosas, já não tão jovens, podemos rever-nos em três versões do medo que nos impedem de reconhecer o Senhor e abrir-Lhe a porta. Aqui falaremos dos três opostos a esses medos.

a) Não ter medo de ser “ingénuo”. Durante muitos anos estivemos presos pelo medo em entrar na experiência de Deus, na experiência mística: Estava tão cheia de perigos! Parecíamo-nos muito ao personagem do conto que o Pe. Van Breemen narra num dos seus livros:

Um caminhante vê-se perdido no deserto. Exausto pelo sol, vê ao longe um oásis: «Ah! - pensa ele - é uma miragem que me quer enganar!»

Aproxima-se do oásis... e este não desaparece. Então observa com toda a nitidez os frutos, a erva e inclusive a fonte. - Bah - disse de novo - não é mais do que uma ilusão, produto da minha mente febril! Na minha desesperada situação é muito fácil ver fantasmas... É pura projecção! Posso, inclusive ouvir o murmúrio da água, mas certamente, é uma alucinação auditiva... Que cruel é a natureza!»

Passado algum tempo dois beduínos (Árabes que vivem no deserto) encontraram-no morto. Disse um para o outro: «Não há quem o entenda: tem os frutos ao alcance da mão e morre de fome; a água do manancial corre junto dele e morre de sede... Como é possível?»

E o outro responde-lhe: - Era um moderno: morreu de medo às suas próprias projecções».

Não é bom permanecer muito tempo sob a suspeita da nossa experiência de Deus, presos pelo medo às nossas projecções. Sobre cada um de nós e sobre o mundo existe realmente um Amor e um Sonho: o Amor de Deus que nos ama e acolhe como somos; o Sonho de Deus que, ao amar-nos como somos, nos sonha diferentes. É melhor entrar em cheio nessa experiência, purificando-a desde dentro e também desde fora, do que permanecer à sua porta, presos pelo medo do auto-engano.

b)      A forma básica da fé é a confiança. O que é que mais nos centra em Deus, o que é que mais nos converte na sua diafania (transparência) no mundo?, perguntava-se Teilhard de Chardin nessa jóia da mística do século XX que é O meio divino: «A fé que é abandono e confiança; a pureza contra o voltar-se sobre si mesmo; a fidelidade como implicação duradoira com Deus que trabalha no mundo».

      A confiança é a forma básica e primordial que assume a fé. Daquilo que parecia um «fantasma» disposto a acabar com eles na tempestade do Lago, surge uma voz conhecida que diz aos discípulos: «Ânimo, não temais, sou eu». É como se o Senhor nos dissesse a todos: «Eu não faço as tempestades, nem os fantasmas, nem tudo aquilo que vos dá medo ou vos faz sofrer... Eu sou amigo da vida, não da dor ou da morte. Porém, justamente por isso, faço-me presente e solidário no mal, venho nele, para que os fantasmas e as tempestades não vos destruam. Em quem vos ides apoiar, no vosso medo ou em mim? A quem ides abrir a porta, ao medo ou a mim?

      «Não tenhais medo, abri as portas ao Salvador», disse a toda a Igreja o papa João Paulo II num dia memorável.

c) Entre o apego e a esperança, aí nos trabalha o Senhor. Somos constitutivamente utopia (o ainda não alcançado) e oxalá não deixemos nunca de o ser porque nesse mesmo momento estaríamos mortos na vida; somos «esperança». Mas também somos «apego », esse rude e paralisador realismo que nos fixa no presente, negando toda a possibilidade de mudança.

     Nos seus encontros com as pessoas, Jesus ocupa, sistematicamente, esse lugar, trabalha o seu futuro a partir desse leve intervalo que une o apego e a esperança. A partir daí é que os dinamiza:

·         Perante a morte do seu irmão, Marta fecha-se na sua dor, mas manifesta também uma ténue esperança. Aí entra Jesus, nesse leve espaço, para tornar possível o futuro.

·         Cegos e leprosos correm atrás de Jesus gritando por sua vez a sua dor e a sua fé. Aí se situa Jesus, onde a dor e a fé se tocam, para operar o milagre.

·         Ao jovem rico move-lhe a admiração por Jesus e talvez uma certa nostalgia. Entre elas e o seu apego ao dinheiro Jesus tenta provocar o seguimento, mas não consegue, desta vez...

     Não nos debatemos também nós hoje, religiosos e religiosas,

comunidades e instituições apostólicas, entre o apego ao que fomos ou somos, e a esperança de que algo ou alguém nos refunda de novo? Uma coisa parece clara. Toda a tentativa de renovação, refundação, ou como se queira chamar, da Vida Religiosa começa por aí: acolhendo o Senhor no espaço que limita o realismo duro com a esperança, o nosso precário presente com o futuro de Deus. Farão falta mais coisas, é certo, mas essa é a primeira.

2.       Gente a quem olhar

m Relê alguma destas cenas do Evangelho na perspectiva do fechar-se/abrir-se, observando atrás de que porta fechada se escondiam os seus protagonistas e quais eram as suas consequências: escuridão, medo, dúvidas, desconfiança, solidão... E como Jesus irrompeu nas suas vidas, venceu os seus temores, derrubou as suas barreiras e lançou-os para um espaço aberto.

        Contempla Zaqueu, fechado dentro da sua condição de chefe de publicanos, as suas riquezas injustas e o desprezo dos outros. Só a inesperada petição de Jesus: «quero hospedar-me em tua casa», conseguiu transformar a sua situação e abrir as suas portas, a sua confiança e a sua generosidade (Cf. Lc 19).

        Contempla a samaritana, escondida atrás do seu cântaro, a sua trivialidade e as suas evasivas que pareciam impedir qualquer comunicação profunda. E dá-te conta de como Jesus vai pacientemente escavando no poço obscuro daquela mulher até

fazer sair dela a água limpa da sua fé e do seu reconhecimento sobre Aquele com quem estava a falar (Cf. Jo 4).

        Contempla Tomé, rústico e obstinado atrás do seu individualismo e da sua posição negativa em aceitar o testemunho dos outros, bloqueado à hora de fazer a experiência de Jesus mais além do que ele mesmo podia ver ou tocar. E no entanto, nenhum desses muros que ele mesmo tinha construído à sua volta, foi obstáculo para Jesus: regressa para o encontrar, pede-lhe que se aproxime d’Ele, fá-lo entrar num contacto de proximidade e intimidade de tal modo que Tomé ficou para sempre marcado pela experiência das feridas do seu Senhor e seu Deus (Jo 20, 26-29).

Ä Sente-te como algum desses personagens.

-          toma consciência de quais são as portas que em ti estão fechadas, atrás de que defesas te atrincheiras e escondes, de que tens medo...

-          A partir dessa situação reconhecida e consciencializada, põe-te diante de Jesus pedindo-Lhe que seja Ele mesmo a derrubar as tuas resistências, abra de par em par as tuas portas, as tuas janelas e a tua vida, e entre nela com a sua luz, o seu perdão, a sua cura...

m Sente como dirigidas a ti as palavras ditas à Igreja de Laodiceia:

«Olha, estou de pé à porta e chamo. Se alguém escuta a minha voz e abre a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo» (Ap 3, 20).

        Começa um tempo de oração lendo este texto, um dos mais formosos da Bíblia e no qual se pode resumir toda a história da revelação, que não é senão uma longa visita de Deus à humanidade que culmina com a chegada de Cristo à porta de cada um de nós. Como disse um teólogo ortodoxo, P. Eudokimov, «O cristão é um homem miserável, mas sabe que há alguém muito mais miserável: este mendigo de amor que está à porta do seu coração. O Filho veio à terra para sentar-se à mesa com os pecadores».

        Contempla os seus dois personagens: o Senhor, apenas sugerido, e esse discípulo anónimo que é qualquer pessoa que esteja disposta a ouvir a sua voz. Identifica-te com ele e detecta através de que palavras, pessoas ou situações te chega neste momento da tua vida, o chamamento do Senhor.

        Repara depois, nessa porta fechada que te separa d’Ele. Ao que parece, só se pode abrir por dentro. Ele que está fora, à intempérie, não vai forçar a sua entrada e está à espera da tua decisão livre: «Se alguém me abre...», e, por isso, a acção retém-se  em tenso suspense: abrir-se-á ou não a porta?

        Toma contacto com as possíveis causas que fazem com que a tua porta esteja fechada: sonhos, distracções, surdez, temor perante as consequências de tê-la aberta...

        Escuta no teu coração a promessa que encerra o possível desenlace: «Cearei com ele e ele comigo». Deixa-te sacudir pela dimensão mística da sua expectativa, «uma mística que é busca de um encontro e revela-se da mesma forma que as grandes realidades que acontecem ao ser humano: A iniciativa vem de fora. As grandes coisas vêm. A vida vem. O amor chega até nós. A felicidade aparece-nos. A morte surpreende-nos. O único que se nos pede é que nos mantenhamos com os olhos abertos» (M. Matos).  

1.       Caminho a percorrer

«Veio buscar-me. A noite era escura e as nuvens escondiam a lua. Eu estava em casa com os meus amigos, entretido em jogos  fúteis. Não lhe abri e ele ficou fora, debaixo das árvores, encharcado de chuva».

Estas palavras de R. Tagore podem assinalar uma leitura em clave colectiva do texto de Apocalipse, vendo nesse hóspede que espera à intempérie os emigrantes que hoje chamam às nossas portas. É um fenómeno que nos afecta a todos e ao qual poderíamos dedicar uma reflexão que nos leve a questionar sobre qual é o nosso conhecimento do tema e através de que vias de informação nos chegou, como nos posicionamos perante ele, que passos podemos dar como consciencialização, mudança de atitudes, acolhimento, etc.

Outro modo de fazê-lo seria ver comunitariamente o filme «As cartas de Alou» ou «Bwana»; ou comentar este fragmento do artigo «O síndrome da CE » de Maruja Torres em O País Semanal:

«Há duas semanas regressava do Oriente e, ao chegar a Bruxelas para fazer o trânsito, vi os libaneses que enchiam o avião converterem-se em vultos suspeitos sob o olhar dos alfandegários, enquanto o meu passaporte da CE me abria facilmente o caminho. (...) recorrendo aos sucessivos vestíbulos imóveis das vitrinas cheias de formosos objectos, luxuosas cabinas telefónicas, perfumarias imponentes e tendas de alimentação transbordantes de refinados alimentos. A minha última recordação  vinha de Beirut, onde se arranjam como podem com quatro cinzeiros de base amolgados e, a modo de papeleiras, caixas de cartão que antes continham água mineral ou leite em pó. Sentei-me a tomar uma cerveja, rodeado de funcionários da CE uniformizados com um loden verde, cumprimentando as pessoas mas com a atenção centrada exclusivamente nos raros produtos de duty free que estavam ao seu alcance como uma orgia de consumo habitual e responsável pelo custo do lanche que equivalia ao rendimento per capita de uma multidão a quem amo porque a conheci... E então comecei a “coçar-me” e continuarei até que debaixo da minha pele saia a pele escura da cor da minha alma, e até que no luxuoso aeroporto de Bruxelas as papelarias feitas com caixas de cartão reinem como um pirilampo no meio da longa noite que nos espera».

3.       Propostas para conversar

Postas em dialogo sobre os nosso medos, podemos dar nome aos fantasmas pelos quais nos sentimos ameaçadas, e contar alguma experiência que tenhamos tido de percepções desproporcionadas perante situações pouco relevantes e que nos fizeram perder muitas energias; e também sobre a nossa maneira concreta de nos defendermos e de nos sentirmos atacadas.

Possivelmente o facto de expressarmos isso e de nos escutar nos ajudará a compreender melhor as nossas reacções e as dos outros.

Podemos comentar os aspectos em que nos vemos retractadas no conto do beduíno, para que pela força de suspeitar não percamos a frescura da fé e da confiança e não aconteça que  tendo tão perto o manancial, morramos de sede..

Possivelmente nos ajudará confessarmos mutuamente os apegos àquilo que fomos e somos e ver como os temores em perdê-los nos fazem viver na defensiva.

É também oportuno ver as fendas  por onde está a passar o Senhor para «refundar-nos».

Disse M. Matos, sj, mestre de noviços de Venezuela: «Uma espiritualidade sem espaço para a experiência mística é uma espiritualidade que deixou de ser o que é. (...). A mística é a busca de um encontro. Trata-se de chegar a viver Deus como paixão ardente». Talvez nos convenha examinar os preconceitos com que podemos ter envenenada a palavra «mística» e dar-nos conta de como mudaria a nossa postura se começássemos a entendê-la como sendo uma maneira ardente e apaixonada de viver Deus.